• Julia de Oliveira

Começando na Tatuagem


Antes de começar de fato minha tragetória na tatuagem, eu queria dizer que essa história não começa com alguém que teve condições de ter os melhores materiais, melhores cursos, melhores equipamentos... Essa história é de alguém que não tinha muita perspectiva de vida. O post anterior, sobre um pouco da minha vida, deixei de lado as partes tristes e aqui vou poupá-los de muito também... Mas a tatuagem me salvou. Me mostrou que eu sou capaz de ir longe... Que minha vida não é um fracasso como eu imaginava. Mas pouco antes de segurar uma máquina pela primeira vez, não era essa a realidade.

Eu, com 18 anos, parei de estudar na sétima série e estava fazendo supletivo, desanimada com as circunstâncias e sem esperanças de conseguir um emprego de carteira assinada, fazia vários bicos. Entreguei muitos panfletos no semáforo até que comecei a trabalhar em um estúdio de tatuagem aqui em Santos... segurando uma placa na calçada. Sim, essa era minha função. E como muitas pessoas curiosas vinham me fazer perguntas, os tatuadores me ensinaram a respondê-las, então veio minha noção de materiais, cicatrização, base teórica que era repetida várias vezes por dia, todos os dias na Av. Floriano Peixoto, no Gonzaga - guardem essa informação. Nessa época, eu ainda nunca tinha visto uma tatuagem sendo feita, não tinha nenhuma noção de nada, apenas achava que era algo totalmente inalcançável. Mas tudo bem. Nesse trabalho, eu ganhava 25 reais por dia, cada um dos tatuadores (eram dois sócios) me pagavam 12,50 no fim do dia. Mas era muito difícil, eles brigavam demais comigo por qualquer motivo e um deles me assediava. Saí, não queria mais. Fiquei um mês afundada em uma tristeza... Até que me chamaram de novo, prometendo que mudariam essas situações... mas com um porém: não me pagariam mais 25 reais, mas 24 porque era difícil terem 50 centavos todos os dias... ahahaha Ok, né! Nunca reclamei de trabalho e foi ganhando 24 reais por dia que comprei meu primeiro celular “bom”, um samsung com android, foi tão lindo...

Mas continuando!

Certo dia, estava chovendo MUITO. Aqui em Santos, chuva é sinal de ruas vazias ou com pessoas correndo para voltar pra casa. Ninguém para pra perguntar sobre tattoos, muito menos pra fazer uma, então os donos do estúdio me permitiram ficar lá dentro com eles. Meu celular estava sem internet no dia também, então fiquei desenhando no sofá, entediada. Um deles se aproximou e viu meus rabiscos despretenciosos e achou muito legal, ele não sabia que eu desenhava e perguntou se eu queria aprender a tatuar, se eu queria que ele me ensinasse, porque daí eu poderia trabalhar pra ele e ganharia “50% do que eu fizesse, sem esforços, porque estava ficando velho” 

Resumindo a história: ele não me ensinou absolutamente NADA.

Mas acendeu uma faísca...

Certo dia, ao chegar para trabalhar, ele estava empacotando suas coisas. Havia brigado com o sócio e estava saindo dali, logo eu também estava saindo, boa sorte! 

E foi exatamente a partir daí, que tudo realmente começou...

Minha mãe reuniu uns troquinhos e me ajudou a comprar os primeiros materiais para começar. Uma máquina que custou R$100, uma fonte analógica de R$80, clip cord e pedal... UMA agulha e UMA biqueira de aço, pois a intenção era apenas tatuar em pele artifical - essas que nem tinha no Brasil na época, consegui comprar DE GRAÇA no Ebay com um cupom de 15 dólares que me caiu como uma benção! Materiais chegaram. Não sabia onde encaixava fio nenhum como ligava ou regulava a máquina (bobina), procurei uma tatuadora que tem estúdio próximo de onde eu morava e ela me ajudou demais, aqui meu agradecimento eterno à Rose Félix!

Tendo os materiais comigo, eu treinava todos os dias, várias horas seguidas... As peles falsas todas rabiscadas... E ao mesmo tempo, também desenhava muito, via muitos vídeos no youtube, meu coração pulsava de felicidade e animação! Era março de 2013. Mas ainda levaria um mês pra que eu começasse a tatuar peles de verdade... E vou falar disso no próximo post. <3

O tatuador que havia se oferecido para me ensinar, vendo que eu de fato comecei a aprender a tatuar - e sozinha - me xingou MUITO de tudo o que vocês possam imaginar... Eu também não sei o motivo, mas vida seguiu, paciência.

Em 2013 não haviam muitas tatuadoras, a maioria dos profissionais diziam ser impossível tatuar com traços finos, estávamos no começo da era dos símbolos do infinito e do “amor eterno”, no fim da era das fadas, duendes, bruxas e tribais... 

Eu tinha tudo à favor para fracassar. Mas quase sete anos depois, estou aqui compartilhando histórias das quais eu sentia muita vergonha... e hoje me orgulho muito de onde surgi e o caminho que venho trilhando... 

Obrigada a quem leu até aqui <3

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(13) 3222-1793

©2020 por Julia de Oliveira.